[Resenha] - A sétima cela - Kerry Drewery


Editora: Astral Cultural
Lançamento: 2016
Original: Cell 7
Literatura Inglesa
Páginas: 313
ISBN: 978-85-8246-265-2


 Já tem um bom tempo desde meu último contato com uma distopia literária,  portanto desde o momento em que soube da existência deste livro, tive vontade de ler por causa do tema que ele aborda. A história de "A sétima cela" se passa em uma Londres futurista, onde a sociedade é dividida entre os mais ricos, moradores das Avenidas, e os mais pobres, moradores dos Arranha-céus. Neste mundo, o sistema judiciário não é mais o mesmo que conhecemos. Não existem mais tribunais, juízes, nem muito menos o recolhimento de provas que acusem ou inocentem o réu baseando-se em evidências. O destino de cada um está nas mãos do povo. 

Martha Honeydew, 16 anos, é a primeira adolescente da história a ser julgada por esse novo sistema. Após ter sido flagrada pela polícia na cena de um dos crimes mais marcantes já vistos, ela é presa e levada para o corredor da morte, onde permanecerá por sete dias até que seja dada sua sentença, resultante de um sistema de votação realizado pelo povo através do programa de TV "Morte é Justiça", que vai ao ar diariamente e possui uma audiência enorme. 

O mundo, em um piscar de olhos, se volta contra Martha e o fato dela se declarar abertamente culpada pelo assassinato de uma das celebridades mais queridas de Londres complicou ainda mais sua situação. Os votos, que serão computados apenas no último dia, claramente já não estão a seu favor e seu único contato com o mundo fora das sete celas que compõem o corredor da morte é através de Eve Stanton, a psicóloga dos prisioneiros que está convencida de que Martha é inocente, apesar de tudo. 
  
Senhora Stanton, quando uma pessoa com voz poderosa se destaca, é fácil para que a maioria siga, e eles seguem para qualquer lugar desde que todas as outras pessoas façam a mesma coisa. É preciso pessoa mais corajosa, mais coragem do que aquelas que seguem o líder, para se libertar do grupo. Uma pessoa corajosa para dar voz para uma opinião diferente.



Como eu já disse anteriormente, já faz algum tempo desde que li uma distopia - se bem me recordo foi Jogos Vorazes na época de lançamento do segundo filme. E por mais que eu tenha gostado bastante, nunca fui atrás de outra distopia que tivesse me chamado tanto a atenção, até agora. "A sétima cela" foi um livro que eu li muito rápido, tão intensa foi a forma com que mergulhei nessa história toda. Brilhantemente bem elaborado e com personagens incrivelmente bem desenvolvidos, o primeiro volume da trilogia superou ainda mais as minhas expectativas.

A narrativa em terceira pessoa não é exclusiva de um personagem, somente. Mas sim, depende de fatores diversos que façam a história se desenvolver bem. Sendo assim, temos uma imensa gama de personagens nos mostrando caráter e pensamentos em relação ao novo regime da justiça que se diz honesto e verdadeiramente funcional. 

Com sete dias para transcorrer no corredor da morte, a nossa personagem principal passa cada um deles em uma cela diferente, numeradas de um a sete, e em seu último dia ali são abertas as votações populares para decidir se Martha sairá do corredor da morte com vida ou se será executada na cadeira elétrica, ao vivo e em cores para todo mundo poder assistir. 

Agora, um programa de televisão que mostra todos os mínimos detalhes da vida de uma pessoa, independente da situação em que se encontra, e que arrecada toneladas e toneladas de dinheiro para que o povo decida o que vai acontecer com ela... Isso é algo um tanto familiar, certo? O rumo da vida de uma pessoa nas mãos da população, e é a população que irá decidir se Martha vai viver ou morrer, tudo isso pelo preço de uma ligação telefônica - e por uma boa quantia a parte, você, telespectador, por acompanhar cada minuto dos que podem ser os últimos dias de vida de uma pessoa. 

Essa foi, sem dúvidas, uma parte que me deixou completamente revoltada no livro. Não por que achei mal construída, muito pelo contrário. Foi tão bem aprofundada e apresentada ao leitor que é impossível ler tais acontecimentos e não enxergar as semelhanças gritantes com o mundo que a gente já vive hoje. Essa manipulação em massa para fazer com que o maior número de pessoas acredite em tudo o que vê na imagem de uma televisão, sem questionamentos, é tudo o que o sistema - ou governo, chame como quiser - precisa. Um sistema que se passa por honesto e justo na tentativa de ganhar o apoio da população, quando por trás dos panos, é tudo, menos honesto e aqueles que vão contra ele são silenciados.


A dor continuaria a me consumir por dentro até que não restasse mais nada, e nós dois seriamos forçados a observar a corrupção fazendo os ricos ficarem mais ricos, os pobres ficarem mais pobres e a justiça se desintegrar ainda mais.  

 Não somente mencionando o disfarce de um sistema corrupto por meio de uma atração televisiva, a autora também mostra em sua história o crescente abismo social presente no mundo e como poder e status pode afetar um sistema que se considera justo e honesto, mas que assim só o é para quem tem dinheiro. Um sistema que se diz lutar pelos direitos do povo e pela segurança de todos, mas cujo objetivo verdadeiro é beneficiar somente a si mesmo por meio de uma verdadeira lavagem cerebral.

Como foi possível perceber até aqui, o livro é muito mais do que a história de uma jovem no corredor da morte e pessoas correndo contra o tempo para salvar a sua vida. Tamanha grandiosidade de acontecimentos desperta sentimentos muito verdadeiros dentro de nós que vão desde a ira pela manipulação descarada no reality show até o nervosismo, o afeto e o amor. Porque mesmo no curto intervalo de tempo do livro - sete capítulos, um para cada cela - a autora criou um amor muito forte, daqueles pelos quais vale a pena lutar. 

Sem mais delongas, unindo essa história fantástica com o trabalho impecável da editora que arrasou na diagramação e na capa do livro, "A sétima cela" tornou-se um dos meus favoritos lidos neste ano e deu início a uma trilogia que promete arrasar até o último capítulo. 


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