[Sob Nova Perspectiva] Os Bons Segredos - Sarah Dessen

OS BONS SEGREDOS - SARAH DESSEN
 Editora: Companhia das Letras | Selo: Seguinte
Gênero: YA contemporâneo | romance juvenil
Páginas: 403
Título Original: Saint Anything

Antes de dar início à resenha de fato, quero esclarecer rapidamente o intuito de eu estar refazendo um conteúdo que já existe aqui no blog. Pode parecer muito óbvio, mas meu principal objetivo com isso é trazer uma análise melhorada do texto original que escrevi antes. Essa vontade de reescrever uma resenha se deve a dois simples fatores – 01) eu li a história pela primeira vez já tem alguns bons anos e não me recordava direito de tudo e 02) assim que terminei, senti uma vontade imensa de expor o que eu senti durante a leitura, mesmo já tendo feito isso antes. Sendo assim, reli a primeira resenha que fiz e identifiquei os pontos que achei poder melhorar. E eu gosto de reler meus livros em parte por causa de que, cada vez que me insiro na história, vejo aquele mundo com outros olhos – e unindo isso ao fato de que a minha perspectiva sobre a criação de um texto como um todo também mudou, resolvi aos pouquinhos ir me reestabelecendo no blog através desse tipo de resenha.


“Os Bons Segredos”, me lembro bem, foi um livro que chegou de parceria às minhas mãos em 2015 e rapidamente se tornou muito querido para mim, porque além de toda a profundidade que sua história oferece, ele te permite sentir essa profundidade num âmbito muito mais normal. Mas eu vou explicar melhor.

Nossa protagonista é Sydney Stanford, uma adolescente na faixa dos dezesseis/dezessete anos que vive com seus pais e seu irmão mais velho e tem uma vida super comum. Por ter uma família de nível social mais elevado, Sydney frequenta uma boa escola e vive em um dos bairros mais nobres da cidade, e sua rotina consiste em estudar, se encontrar esporadicamente com suas duas amigas Jenn e Meredith, e passar seu tempo livre assistindo Reality Shows na televisão. E por ser a irmã mais nova, constantemente ofuscada pela imagem de seu irmão Peyton, Sydney se apresenta ao leitor como uma pessoa invisível – e que já está até acostumada com esse tipo de vida. Os pais davam mais atenção ao irmão, na escola ele era quem tinha mais amigos, e a vida girava em torno de Peyton.

Até que tudo mudou quando o irmão de Sydney se envolve com álcool e drogas, e atropela um garoto de quinze anos ao dirigir embriagado. Por seu histórico de infrações, Peyton acaba sendo condenado à prisão pelo crime que cometeu. É aí que o livro de fato começa, nesse divisor de águas que faz com que Sydney perceba que nada na sua vida será como antes – principalmente no âmbito familiar, dentro das quatro paredes de sua casa. Enquanto nossa protagonista passa seus dias carregando um sentimento de culpa pelo que aconteceu, sua família enxerga as coisas de um jeito diferente: sua mãe parece somente procurar motivos para diminuir o crime cometido por Peyton, como se ele não fosse verdadeiramente responsável pelo que havia feito, e seu pai raramente toma posicionamento sobre qualquer coisa, permanecendo impassível ou apoiando as ideias da esposa.

Cansada da nova rotina que se estabeleceu dentro de sua casa e da insistência dos pais em não (querer) ver a realidade, Sydney tem cada vez menos vontade de voltar para lá depois da escola. Até que certo dia, após a aula, a garota resolve parar em uma pizzaria para matar o tempo antes de precisar voltar para o jantar e, na simplicidade do lugar, ela conhece os Chatham, uma família igualmente simples e humilde que já a recebe de braços abertos. À medida que Sydney vai se introduzindo no mundo tão diferente em que Layla, Mac e os demais membros da família Chatham vivem, os olhos dela vão igualmente se abrindo para uma realidade muito além da que estava constantemente inserida.


Para mim, os Chatham eram como aquele carrossel no meio da floresta. Depois de muito tempo sem saber de sua existência, por sorte trombei com eles. Agora eu era incapaz de esquecer e voltar a ser como antes. Só saber que eles existiam já mudava tudo. Principalmente a mim mesma. 




O QUE EU ACHEI DO LIVRO


Por mais que se enquadre na categoria de romance juvenil, "Os Bons Segredos" sempre deixou claro para mim o quanto ele vai além de sua categoria ao abordar uma série de temas sutilmente inseridos na história que são muito comuns no mundo real e que podem por vezes passar despercebidos aos olhos de cada um de nós. Obviamente que não é possível ignorarmos essa categoria - afinal, consciente ou inconscientemente, sempre ao lermos um livro dessa premissa, esperamos encontrar algum tipo de romance em suas páginas. E se você é um leitor ou leitora que sente necessidade de uma pitadinha de amor pairando pela história, pode ficar tranquilo/a que tem romance na medida certa para a ideia que a autora quis passar.

Digo isso porque o romance em si é uma parte essencial da narrativa, mas não é o foco principal. Ele tem seu lugar no emaranhado de fios que se conectam para formar a história de VIDA da protagonista. E coloco vida em letras garrafais porque, obviamente, é assim que funciona. Além da súbita mudança no âmbito familiar causada pelas atitudes do irmão mais velho, Sydney ainda precisa lidar com tudo o que se desencadeou em seguida. Assim como aborda temas de crescimento pessoal e amizades verdadeiras, o livro não fica somente na felicidade, como já deve ter dado para perceber. E isso é bom, porque é o que serve de equilíbrio para a história se tornar ainda mais verdadeira e realista.

Sarah Dessen inseriu Sydney em um (im)perfeito mundo real e construiu personagens incrivelmente desenvolvidos para guia-la nessa jornada de redescoberta. Sydney, como mencionado, sempre viveu às sombras do irmão e o propósito de "Os Bons Segredos" é nos contar a história de uma pessoa a caminho de se libertar e construir seu caminho. É quase impossível não se conectar e se ver espelhado nessa personagem, como um todo ou em partes, porque a narrativa única pelo ponto de vista de Sydney nos mostra o quão intensa ela é, o quanto ela sente. E suas inseguranças, seus medos, suas alegrias podem se igualar e se refletir em muitos de nós.


Eu sempre tinha sido a outra, a que não era Peyton. Já tinha até aceitado. Mas então finalmente conheci pessoas que me enxergavam de um jeito diferente. Agora que eu era real e estava em primeiro plano para alguém, nunca mais queria ser invisível.


Os demais personagens também não ficam atrás, conseguindo despertar no leitor o tipo exato de sentimento esperado em relação às suas atitudes, caráter e forma de pensar. E é muito fácil o leitor inesperadamente começar a se ver compartilhando laços com algumas dessas pessoas, daqueles em que "eu queria ser amiga dessa personagem" | "deveriam existir mais !!![spoiler]!!! assim no mundo" e por aí vamos seguindo. Quem nunca se pegou pensando assim sobre algum personagem que amou que atire a primeira pedra.

Sobre a edição: não reclamo de nada quanto ao excelente trabalho de apresentação, o que reforça ainda mais a minha opinião de que este livro é maravilhoso em todos os sentidos. As páginas mais amareladas são suaves o suficiente para não cansar a vista do leitor e a fonte do livro possui o tamanho perfeito, nem pequena demais a ponto de embaralhar a vista, nem grande a ponto de dar a impressão de preencher espaço por falta de história.

A capa também é um atrativo muito grande, porque representa muito do que a história quer passar ao leitor. Quase como uma rotina, eu sempre gosto de procurar as capas originais dos livros que leio, ver se foram modificadas ou mantidas, e qual cai mais nas minhas graças. "Os bons segredos" é o raro caso em que não consigo me decidir, porque em ambas foi feito um trabalho encantador a seu modo que reflete com maestria os pontos atrativos da história.

Em relação à capa brasileira, levemente emborrachada que dá uma textura super bacana ao exemplar, a editora uniu dois elementos muito interessantes: a referência à uma das mais marcantes cenas do livro e o foco principal da história, que é a protagonista se libertando das amarras que a prendiam na sempre igual rotina de sua vida e indo de encontro à sua liberdade. Posso nunca ter reparado bem em outras capas, mas digo que dou nota máxima para a sensibilidade que foi colocada no desenvolvimento dessa capa e - por que não? - desse livro como um todo.

"Os bons segredos" é um livro que, tenho certeza, ficará marcado para sempre pela força dessa história e da personagem que não somente cresce muito ao longo de capa capítulo, mas nos leva junto com ela.

NOTA: 5|5  

  

Só consegui pensar que ali, finalmente, pela primeira vez, eu não estava apenas vendo e registrando as mudanças. Eu também fazia parte daquele mundo em transformação.






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