[Resenha] - Árvore e Folha - J. R. R. Tolkien

Título Original: Tree and Leaf
ISBN 13: 9788595085664
Categoria: Educação
Tamanho: 13,5 X 20,8
Lançamento: Abril/2020
Número de páginas: 176


O livro "Árvore e Folha", originalmente publicado em 1964, ganhou uma nova edição em capa dura feita pela editora HarperCollins e conta com textos inéditos do autor. Diferente de suas obras mais famosas como “O Senhor dos Anéis”, “O Hobbit” e “O Silmarillion”, John Ronald Reuel Tolkien começa o livro com um ensaio chamado “Sobre Estórias de Fadas” que surgiu em uma palestra ministrada por ele mesmo na época em que escrevia, ou melhor, descobria (segundo o próprio autor) a história de “O Senhor dos Anéis”.

Ele começa este ensaio tentando definir o que seria uma estória de fadas (na época em que foi escrito, era comum usar a palavra "estória" ao se referir a narrativas populares). No entanto, a maioria das definições encontradas em dicionários dizia que eram histórias irreais e incríveis que contavam uma mentira. Obviamente, o autor discordava desta definição e logo percebeu que definir “estórias de fadas” seria, praticamente, um esforço em vão visto que não há como desenvolver uma fórmula para este tipo de escrita usando meras palavras. Entretanto, Tolkien analisou e encontrou vários elementos que poderiam ajudar uma pessoa a entender o que seria uma verdadeira estória de fadas e, diferente do que a maioria das pessoas pensaria, não é uma história somente para crianças. Muito pelo contrário. É de extrema importância para adultos também.

O autor observa que o próprio termo “fada” não é objetivo, já que muitas vezes é associado a uma criatura pequenina, com orelhas pontudas e que produz algum tipo de magia, mas em muitas histórias, a palavra “fada” tem o mesmo significado que “elfo” e baseando-se nas obras mais famosas, nem todos os elfos são pequenos em estatura. Contudo, um dos elementos mais importantes deste tipo de narrativa é a magia de Feéria (nome dado ao mundo de histórias de fadas), não necessariamente feitiços feitos por magos ou bruxos, mas a magia da própria Natureza, pois ela é o que aproxima o mundo das histórias de fadas ao nosso mundo real. Isto não quer dizer que estas histórias não sejam reais, afinal a beleza desses mitos é a capacidade de nos fazer usar a imaginação que é uma das maiores habilidades do ser humano. Muitos usam a imaginação acompanhadas dessas histórias como uma válvula de escape do mundo real.

Feéria contém muitas coisas além de elfos e fadas e além de anões, bruxas, trols, gigantes ou dragões; Ela abriga os mares, o sol, a lua, o céu, a terra e todas as coisas que estão nela: árvores e pássaros, água e pedra, vinho e pão e nós mesmos, homens mortais, quando estamos encantados.


Outro elemento essencial das histórias de fadas é o que Tolkien chama de “eucatástrofe”, a reviravolta feliz da história. Isto normalmente acontece próximo às últimas páginas que irão concluir a narrativa. Mas isto não significa que a história possua um fim, pois os mitos de Feéria nunca acabam, apesar de várias delas terminarem com a frase “E eles viveram felizes para sempre”. Considerando que o catolicismo foi muito importante na vida de Tolkien, em seu epílogo, ele usa a história de Cristo como exemplo, pois ele afirma que esta história mostra exatamente o que seria a eucatástrofe, onde um bebê nasce em uma manjedoura, cresce, realiza milagres, acaba sendo crucificado (este momento pode ser considerado a catástrofe da narrativa) e renasce três dias depois (a eucatástrofe). O autor explica que a história de Cristo é um perfeito exemplo de que um mito pode ser verdadeiro, pois trata-se de uma história que possui uma ligação direta com o mundo real e influenciou toda a humanidade.

Além deste ensaio, o livro contém mais 3 textos. Um deles é a poesia “Mitopéia”, onde Tolkien tenta demonstrar a beleza e a magia das histórias de Feéria misturando a fantasia com a realidade. Também contamos com “Folha de Cisco”, uma história onde o autor retrata parte de sua vida, explorando mais o seu lado artístico que afetou completamente a sua escrita por estar sempre em busca da perfeição ao desenvolver suas obras. Por fim, há o poema “O Retorno de Beorhtnoth” que traz uma brilhante conexão histórica com a Batalha de Maldon trazendo um diálogo entre dois homens em um cenário de guerra que gerou muitas reflexões sobre heroísmo e soberba. Vale a pena ressaltar que o livro é denso e complexo e, além disso, é necessário que você tenha um certo conhecimento sobre as obras de Tolkien para ter um maior entendimento da magia das histórias de fadas que o autor tenta expressar. Portanto, com “Árvore e Folha” Tolkien mostrou que, além de ter um conhecimento surpreendente sobre história inglesa e ser um excelente escritor de literatura fantástica, ele também escreveu ótimos textos reflexivos em que ele expressa a forma como ele enxerga essas histórias e o mundo ao nosso redor. 


A fantasia é uma atividade natural humana. Ela certamente não destrói ou mesmo insulta a Razão; e não torna menos aguçado o apetite pela verdade científica, nem obscurece a percepção dela. Ao contrário. Quanto mais aguçada e clara a razão, melhor fantasia fará.

 

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